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Na semana que estivemos internadas, entretivemo-nos a ver da janela do quarto, que dava para o aeroporto, os aviões que chegavam quase de seguida com pouco minutos de intervalo e verificar a companhia e tamanho, imaginando de onde virão. A graça que a Bárbara achava a isto, e quando a rota mudou e em vez de aterrarem, levantarem, já não sendo visíveis, apenas audíveis,como ela se aborrecia com aquilo.

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publicado às 23:34

Depois do dia difícil que foi o anterior, a noite não foi nada fácil também. As tonturas e dores de cabeça continuaram terríveis, continuou sem se conseguir por de pé, não foi sequer capaz de ir ao wc quando precisou, e depois o resto da noite nem ela nem eu dormimos grandemente. Durante o dia os vómitos, as náuseas as dores de cabeça e as tonturas não pararam. Nada ficava no estômago, nem o chá que lhe davam para a tentar hidratar e só a meio da tarde conseguiu levantar-se, sempre com muito cuidado e muito devagar. A primeira coisa que conseguiu manter no estômago foi um gelado que a enfermeira Lara pediu para ela, já durante a tarde, mas foi sol de pouca dura, pois à hora do jantar as três colheres de sopa que entraram fizeram sair tudo outra vez. Depois da cirurgia a dieta era suposto ser líquida uma vez que não se pode mastigar, mas no caso era mesmo nada, porque nada ficava, mesmo a fazer medicação para contrariar isto. No dia seguinte, domingo, a medicação foi alterada e colocaram-na a soro, pois havia o risco de desidratação. No hospital o último dia em que vomitou foi segunda feira ao pequeno-almoço, e na terça ao fim da manhã vimos a luz ao fundo do túnel, o médico disse que se assim continuasse, na quarta a meio da tarde poderia ter alta. Como não há bela sem senão, ao fim do dia fez uma reacção alérgica terrível, a um dos medicamento para os vómitos, com uma comichão tremenda acompanhada por espasmos, uma cena que me perturbou bastante assim como à Barbara que só dizia: "mas o que é isto agora? Estraguei tudo, já não vamos embora amanhã". Valeu o querido enfermeiro André que não saiu de ao pé da Bárbara até tudo voltar ao normal. Minha querida filha, estava desejosa (estavamos as duas) de vir para casa. Felizmente nada se alterou e na quarta-feira às 16H45 tivemos ordem de soltura finalmente. A acompanharnos uma parafernália de medicamentos e a indicação de voltarmos logo na sexta para fazer o penso e ele ver a evolução. Já em casa vi a coisa mal parada, pois nesse dia desde que chegou até à noite voltou a vomitar o que a mim me parecia até as entranhas. Foi da viagem de carro, explicou depois o médico.

Foi uma semana que parecia não ter fim, foram dias muito complicados, cansativos, eu sentia-me à beira de colapsar, tal era o cansaço, com muitos nervos à mistura, sem puder fazer nada para que a Bárbara não passasse por isto, mas ainda assim não foi nada se comparado com o sofrimento e tudo o que ela passou, afinal eu ali era a espectadora, era o colo, era o porto de abrigo. As noites no cadeirão (que não era assim muito confortável) eram passadas com sentido de alerta total, as manhãs começavam bem cedo (antes das sete já tudo girava) logo o descanso era pouco, levantava-me sempre dorida e com o corpo moído. Ela foi uma valente, mais uma vez em tudo foi uma doente exemplar, sempre conformada, consciente que o objectivo a atingir vale o sacrifício. À saída até a carinha era outra.

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publicado às 21:33

Post escrito a 26/07/2013, em papel, e agora transcrito para o blog

 

A cirurgia

 

O dia começou bem cedo às 07h00. A Bárbara foi tomar banho e mais uma vez vestir o pijama do hospital para se preparar para o bloco. O meu coração palpitava a cada movimentação no corredor, não fosse o diabo tecê-las e à última hora ficar tudo por isso mesmo. Mas não, às 07h30 veio o anestesista falar um bocadinho connosco. Pergunta com rasteira: "Então Bárbara, o pequeno almoço hoje foi bom?" Entendo o objectivo de assim perceber se a criança está de facto em jejum, mas ela estava com fome, até ficou baralhada, tipo "Esta criatura ainda me goza e eu aqui sem puder comer."

Fui com o pai levá-la até ao bloco operatório às 08h30. As horas seguintes foram terríveis (bem, terríveis é um exagero, que já levo umas quantas esperas de cirurgia de experiência, mas foram muito difíceis), mãe sofre. A cabeça e o coração não param num turbilhão de pensamentos e sentimentos. Todos aqui no hospital foram mais uma vez de um cuidado, de uma atenção, foram impecáveis. Lá me convenceram a ir apanhar um bocadinho de ar, afinal não saía daqui desde quarta-feira às nove. Fui contrariada, mas fui e tinham razão, fez-me bem. Tomei o pequeno almoço lá no cafezinho (um luxo a que não me dava há tanto tempo que nem me lembro quando foi a última vez) e soube-me tão bem. Aproveitei para tomar um duche, trocar de roupa, ocupando assim o tempo em que não ia ser necessária junto da Bárbara. Fomos tendo vários updates ao longo da manhã e um dos anestesistas quase no final até nos trouxe uma foto, só faltava fechar a incisão, para nós vermos. Só saiu já era uma da tarde, minha rica filha.

Durante a manhã, aliás durante todo o dia, o telemóvel não parou de tocar, já me estava a dar nos nervos. Bem sei que estão todos, familiares e amigos, em cuidado com ela. Quando posso retorno as chamadas e sms.

Acordou completamente estremunhada, mas passado um bocado já estava muito bem disposta, tendo em conta as circunstâncias. Depois dormiu de novo e na hora de ingerir qualquer coisa e do levante é que foram elas. Náuseas, tonturas, dor no local da cirurgia, dores de cabeça, e de repente, zás - toca a vomitar de rajada. São 21h40, as tonturas teimam em não passar e agora está a dormir novamente. Bem sei que na cirurgia foi muito mexido o ouvido interno, onde se controla o equilíbrio, mas tenho uma pulga atrás da orelha e agora o médico só vem domingo. A voz dela, no pouco tempo que esteve sentada na cama, tinha um som metálico, fazia eco ou melhor ressoava. Hummm... Só na segunda é que faz uma TAC para saber se está tudo bem com o implante e a localização. Tem tudo para estar bem, está tudo bem. Mas a ansiedade, essa, cá fica até haver dados concretos. 

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publicado às 17:45

Post escrito a 25/07/2013 em papel, e agora transcrito para o blog

 

A expectativa

 

A minha noite foi bastante mal dormida, felizmente a da Bárbara não, ela consegui dormir. Acordámos, ou melhor, levantamos bem cedo, veio uma enfermeira do bloco dizer para a Bárbara se preparar tal como se o risco da cirurgia não acontecer, não fosse eminente, para fazermos tudo normal. Assim fizemos. Tomou banho, vestiu o pijama do hospital, para ir ao bloco e aguardámos. Nos cabelos fizemos umas tranças de forma a deixar a descoberto a área que foi rapada ontem, para facilitar o trabalho dos cirurgiões, por um lado e por outro para que o cabelo se suje o menos possível (afinal vamos estar uns dias valentes sem poder lavá-lo). E não é que à parte da imensa pelada ficar visível, a miúda até ficou bem gira.

As horas seguintes é que foram terríveis o tempo não passava. Às 11h00 lá nos disseram que hoje não era mesmo a cirurgia, infelizmente, restava aguardar para se saber para quando ficaria, ou para amanhã, ou para a semana, ou então só para depois das férias... Estremeci. Agarrei-me com unhas e dentes à primeira hipótese, era a única que podia considerar.

A Bárbara pôde então tomar o pequeno almoço (estava desde a meia-noite em jejum, desgraçada), uma valente torrada e um pastel de nata que o pai foi comprar. Passou a hora de almoço e passou mais e mais tempo, parecia não ter fim a espera. Entretanto vimos entrar um bebé de apenas 15 dias para cirurgia, lá chegou também finalmente o cirurgião, e quando terminaram lá veio o veredicto. Passa para amanhã! Ufa, que alívio. A Bárbara estava numa ansiedade só (estávamos todos, a vantagem é que os adultos disfarçam) agitada, enfim acho que compreensível mediante a situação. Durante a tarde as horas teimavam em não passar, tive tanto receio que voltasse a acontecer. Mas não, amanhã, como previsto, à primeira hora, estaremos firmes e hirtas até à hora da chamada. Pintámos, lemos, conversámos, à Bárbara tranquilizou, até dormiu a sesta. A querida técnica de ORL veio falar connosco, sempre atenciosa e em cuidado.

Tenho de tentar dormir, ou pelo menos descansar melhor esta noite, para não falhar quando ela mais precisar de mim. Ela fresca que nem uma alface não quer dormir já.

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publicado às 09:55

Post escrito em 24/07/2013 em papel, e agora transcrito para o blog.

 

Na corda bamba

 

Quando as coisas têm que ser difíceis na vida, são difíceis mesmo e são difíceis sempre. Tudo tem de ser sofrido, uma luta até se alcançar uma vitória.

Cá estou, ou melhor, estamos, hoje mais uma vez na corda bamba, sem saber o que reserva o futuro próximo, se a bendita colocação do implante se realiza ou não.

Chegámos ao hospital para fazer o internamento eram 9h30, e embora já estivessem à nossa espera tivemos de aguardar quase duas horas e meia, que uma menina tivesse alta para termos então vaga, para finalmente internarem a Bárbara. Fomos recebidos pela educadora Rita que aqui tem o papel de explicar aos meninos o quê e como se vão passar a cirurgia e os dias de internamento. Veio também a assistente social do hospital, veio a nossa querida técnica de ORL, as enfermeiras, etc. Como entretanto estava na hora da refeição deram-lhe o almoço e de seguida então se iniciaram os procedimentos, canalizar veia, tirar sangue para as análises, fomos fazer electrocardiograma e raio-x. Quando voltámos ao quarto chegou a hora de rapar o cabelo na área da cirurgia que ainda é um valente bocado, quase meia cabeça, desde um bocadinho acima da orelha até atrás à nuca. Confesso que não pensei que fosse necessário cortar tanto. Estávamos finalmente despachados dos procedimentos pré-cirúrgicos quando entra um dos médicos no quarto a dizer, com o ar mais normal deste mundo, - "se calhar a cirurgia não vai acontecer, há uma grande probabilidade de o implante não se colocar amanhã" - Oi?!?!?! Senti-me ficar sem pinga de sangue, gelei até ao tutano. Chega a técnica de ORL, entretanto, tão incrédula como eu, tinham acabado de a chamar.

Ora então o cirurgião principal e os restantes médicos foram convocados para uma qualquer reunião xpto, à primeira hora da manhã, por uma senhora directora clínica (louca, só pode), que não olha a meios nem a consequências para levar as suas decisões adiante. Eram quatro e dez da tarde, a cirurgia está prevista para as oito da manhã. Como é que isto é possível???S ó neste país mesmo. É a saúde que temos... em crise. Isto não se faz... andamos há uma semana ansiosos, angustiados, a mentalizar-nos para mais esta dura realidade, mas que tem mesmo de ser. Foi o caos no meu trabalho para eu poder faltar estes dias (bem sei que a prioridade é a Bárbara e sempre será, mas se não houver trabalho ela também é afectada). E corremos o risco de ficar tudo em stand by. Está tudo pronto, a miúda já tem o cabelo rapado e tudo mais... mas como, tentei argumentar, e como resposta obtive - "estes imprevistos acontecem, sabe... estamos com imensos cortes orçamentais, reduções de tudo, pessoal, material, etc. Desde que o conselho de administração mudou, estas reuniões agora acontecem assim. A solução para já é aguardar que tudo seja desconvocado e a cirurgia afinal se concretize e o implante seja colocado. A alternativa é na próxima quinta, daqui a uma semana. Quer aguardar ou prefere ir embora?" Oi?!?!?! Como é que eu me podia ir embora, é uma coisa que a Bárbara precisa, quase como pão para a boca. Não estou nem um pouco descansada pois esta data marcou-se porque os médicos iam de férias, como é que operam para a semana, só lá para Setembro e lá se vai um mês de escola e provavelmente o ano lectivo, porque depois desse mês há todo um acompanhamento que implica faltar muito às aulas também.

Só me apetece gritar alto e bom som, desancar tudo e todos, mas não posso, tenho de me conter na forma e como digo as coisas. Afinal eles têm a faca e o queijo na mão, a Bárbara precisa deste implante e esta é a única forma de o conseguir, infelizmente. A Bárbara ficou completamente à nora, mas afinal é e depois já não é, e agora mãe, se eu não fizer o implante, etc.... aquela cabecinha ficou a mil.

Estou incrédula, ainda assim. Como é que é possível fazerem-nos passar por isto? Um implante coclear não é um procedimento qualquer, nem tão pouco corriqueiro. Devia ter havido mais atenção nesta cirurgia, que longe está de outras tão básicas em ORL. Estou tão perdida, sinto-me tão sem chão, sem saber o que pensar, o que fazer, como lidar com esta tão grave situação. Se isto já era tudo tão complicado, agora então...

Como eu digo, na minha vida tal como na da Bárbara, tudo é tão sofrido, tão difícil. Oh que karma este...

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publicado às 12:59


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