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Este fim-de-semana, por estes lados, trabalha-se, há Dias da Música em Belém. Como os miúdos estão comigo, levei-os não para trabalhar mas para assistir a alguns concertos. Mostrei-lhes quais eram as salas de espetáculos onde tinham de ir e dei-lhes carta verde para se movimentarem livremente, animação e entretenimento é o que não falta um pouco por todo o CCB. Com a vantagem de conhecerem muitos colegas meus e de quase todos os conhecerem também. Portaram-se como dois adultos, passearam, assistiram a quatro concertos, foram ver o mercado CCB e a cada intervalo vinham contar-me o que faziam, entusiasmadissimos. Estava eu muito mais preocupada se eles estariam bem, do que foi necessário. Que mãe galinha esta. Foi mesmo uma experiência diferente para eles e para mim.

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publicado às 18:13

Foi há um mês, vou lembrar-me de cada instante por mais anos que viva, disso tenho a certeza. Foi a noite em que acompanhei as últimas horas de vida da minha mãe. Foi duro, muito duro. Um sofrimento indescritível, como eu nunca imaginei ser possível. Não sei como é que é possível um ser humano resistir a tamanha violência durante tantas horas. No caso da minha mãe a morte aconteceu por asfixia, os pulmões foram deixando de funcionar. Antes dos pulmões já tinham parado o estômago, o pâncreas, os rins, já estava a fazer hipo profusão, desidratou, sei lá mais o quê. Sabia que o fim estava próximo, foram mesmo uns últimos dias terríveis. A cada dia uma má novidade, até do almoço para a noite fazia diferença vê-la.

Esta que foi a noite mais longa da minha vida, começou às 21h30, estava eu ainda com ela na visita, com a primeira paragem respiratória. A visita estava a ser bem difícil, nem imagina eu que o fim se aproximava a passos largos. Eu falava com ela, tentava que me respondesse, ou que reagisse pelo menos. Ainda me conseguiu dizer “Oh Cátia, a mão não pode…”. Aquilo custou-me horrores, lá lhe disse então ouve-me só, estou aqui ao teu lado, vou estar aqui até ao fim. Ela também sabia que era o fim, pelo meio dizia que queria morrer, que não aguentava mais. A dificuldade em respirar era tremenda, aflitiva até e de repente parou de respirar deixou cair a cabeça e eu à toa, percebi que o fim que médicos e enfermeiros me diziam estar próximo, estava mesmo ali. Descontrolei-me, chamei o enfermeiro e chorei compulsivamente, perdi a calma que tinha tão bem conseguido manter até ali, o meu coração disparou, de repente parecia que me saia da boca a qualquer instante. Ela voltou a respirar entretanto, foi a primeira de muitas apneias que fez durante toda a noite. O enfermeiro André puxou-me para fora do quarto e disse-me: “É agora, o fim chegou, isto vai ser sempre assim, pode demorar uma hora, pode demorar duas ou até cinco, ou mesmo a noite toda ou até um dia. Depende do que o corpo da sua mãe consiga aguentar. Quer ficar connosco esta noite? Eu acho que quer, do que tenho visto de si nestas semanas, sei que quer. Mas tem de se controlar senão não a posso deixar ficar.” Claro que quero ficar, respondi, e fiquei até ao fim. Veio a médica de permanência, foi-lhe administrada medicação para a manter mais calma e minimizar o sofrimento e ali ficámos as duas. Entretanto disseram-me que podia ter alguém ali comigo se quisesse, que era um momento terrível e que se pudesse estar acompanhada seria melhor. O Nuno estava a trabalhar, pedi à minha irmã A. que o fosse buscar e foram lá ter comigo, assim como a minha irmã P. assim que pode. Assistiram comigo o terrível sofrimento daminha mãe, fizeram aquele momento tão dramático, um pouco mais suportável. Aguentaram estoicamente tão dura prova. É terrível assistir assim aos últimos momentos de alguém. A partir das quatro e meia voltámos a ficar só eu e ela, entretanto já inconsciente (melhor assim). Ela esteve consciente até por volta das duas da manhã, dizendo que doía, balbuciando palavras, chamando pela minha avó, dizendo que não, um horror…

Depois daquela primeira paragem respiratória, os períodos de apneia eram enormes, 20 a 30 segundos de cada vez, seguidos do esbracejar desesperado da respiração aflitiva de quem tem falta de ar e de repente consegue respirar outra vez. A boca secava constantemente com a sua respiração ofegante e eu com uma esponjinha ia molhando. Toda a noite lhe disse que partisse, que a amava profundamente, mesmo com todos os quiproquós que tivemos ao longo da vida, naquele momento nada disso tinha importância alguma. Disse-lhe que fizesse a sua viagem daqui até à lua, que eu e os meninos ficávamos bem. Era o tinha de ser. Parecia que as horas não passavam, estava acordada a viver o meu maior pesadelo.

Por diversas vezes fui ter com o enfermeiro, para que lhe ajustassem a medicação (tinha uma bomba doseadora administrava a morfina lentamente). Lá aumentavam um pouquinho mais o valor. Durante toda a noite verificaram inúmeras vezes o estado dela, e incansavelmente me perguntavam se eu precisava de alguma coisa, tanto auxiliares como enfermeiros.

Ao longo da noite, conforme o sofrimento e do efeito da medicação, as feições delas desfiguraram de tal forma, ficou quase irreconhecível. Já perto do amanhecer a respiração era quase impercetível, os períodos de apneia diminuíram, o coração já batia muito fraquinho. Quando lhe pousava a mão no peito, parecia que o coração estava muito longe. Uma das enfermeiras numa visita até me disse: “Eu não sei se acredita nestas coisas, mas eu acredito. Sabe se há alguma coisa que a prenda cá, ela parece não querer partir como que se ainda não tivesse tudo resolvido”. Pela minha cabeça passaram num repente os últimos meses das nossas vidas, a nossa última desavença, de culpa dela. Mesmo não acreditando em coisa nenhuma, aquilo martelou-me as ideias.

Sentia-me exausta daquele sofrimento sem fim, e eu só assistia, não consigo imaginar o que estaria a ser para ela que estava ali a sofrer na pele aquele fim terrível. Agarrei-me a ela, naquela que seria a última vez com vida, com todas as minhas forças, dei-lhe inúmeros beijos, acariciei-lhe o rosto, sei que me sentia. “Amo-te muito, vou amar-te sempre, o que passou, passou, agora já não interessa, eu estou bem, eu fico bem e os meninos também. Eles também te amam muito, vamos ter saudades imensas. Podes partir chega de sofrimento. Sempre que olhar para a lua sei que vais estar lá” - Disse-lhe pela última vez. Instantes depois, às dez para as oito da manhã nova paragem respiratória, cronometrei como fui fazendo por diversas vezes ao longo da noite. Um minuto…, dois minutos… três, percebi que tinha partido. Toquei a campainha, veio o enfermeiro, foi a confirmação. Naquele momento deixei-me levar pelas emoções, chorei compulsivamente até quase me faltar o ar. Se por um lado sabia que era o melhor que lhe podia ter acontecido, por outro era a minha mãe ali sem vida, para nunca mais voltar. Chamei o meu marido e a minha irmã A. para irem ter comigo. Fiquei ali de mão dada com ela, acariciei-lhe as faces disformes, beijei-a, abracei-a com todas as minhas forças. Ganhei assim coragem para o que se seguia, tinha as cerimónias fúnebres para tratar, tinha de me recompor para ir contar aos meus filhos que a avó tinha partido. Tinha os amigos dela para avisar. Que estranho não ter ninguém de família a quem contar, família erámos só as duas.

Daquela noite nunca, mas nunca me vou esquecer, mas estive lá até ao último momento, foi comigo ao seu lado que partiu.

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publicado às 13:44

Foi duro...

06.04.15

Post escrito dia 01 de Março no hospital, uma semana antes da minha mãe partir.

 

Estar aqui assim impotente sem nada poder fazer, assistindo àqueles que são provavelmente os últimos momentos de vida da minha mãe... Hoje está como nunca a vi, cansada ou melhor, exausta, custa.lhe respirar, quase não consegue falar, só pedia à pouco que queria dormir. Depois da medicação, ali está dormindo um sono que é tudo menos tranquilo. Só me resta estar aqui com ela o tempo que ainda me for possível. Maldita doença esta. No caso dela o que começou num pulmão, já está em todo lado. Não somos mesmo nada, o que um ser humano é o no que a doença o transforma. Doente, dependente num sofrimento sem dó.

 

 

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publicado às 23:23


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